Dois anos depois, Irmã Valéria conta como foi viver no Haiti pós-terremoto

Dois anos depois, Irmã Valéria conta como foi viver no Haiti pós-terremotoEm janeiro de 2010 acontecia no Haiti, um terremoto de 7 pontos nas escala Richter que deixou a cidade Porto Principe em ruinas. Foram 200 mil mortos e 1,5 milhão de desabrigados.

Religiosos proposeram a ajudar o país nesse terrivel fato. Entre eles estavam a Irmã Valéria Timóteo – freira da Congregação de São Francisco de Sales.

A irmã Valéria que já havia estado na Africa por 10 anos, estava no Brasil há um ano e meio, quando viu o notíciario da tragédia no Haiti. Sua atitude não foi diferente da mesma com o povo africano, e assim partiu para Porto Principe.

Em entrevista ao Portal A12, Irmã Valéria falou sobre a decisão de ir para o Haiti, a recepção, um pouco do que realizou durante esses dois anos que esteve no país, e outros assuntos.

A decisão de ir
Quando eu assisti aquelas imagens [terremoto no Haiti], alguma coisa dentro de mim revirou. É Deus que fala na gente, então todo aquele impulso de novo, do primeiro sim que tinha dado quando fui para a África, voltou e eu sentia dentro de mim, que precisava fazer alguma coisa.
Foi um momento de agonia, vendo as imagens, sabia que não ia ser fácil, ia ser uma realidade muito diferente daquela que tinha vivido na África. Nunca tinha passado por uma experiência de terremoto.

A chegada no Haiti
Sobrevoando, vi aquela imagem bonita e ao mesmo tempo triste, porque é uma ilha o Haiti. Todo o contorno é muito bonito, aquele mar do Caribe. Mas a situação era drástica naquele pedaço de Porto Príncipe, por causa da destruição.
Desembarcamos no aeroporto e a gente via nas pessoas, nitidamente, o rosto da destruição. Aquilo nos olhos chamava a atenção.

O que fazer?
Nós temos comunidades no Haiti, em 2010, fizemos 75 anos de presença no Haiti. Fiquei uns três meses em Porto Príncipe, ajudando em tudo aquilo que poderia ser feito. Foi uma experiência muito bonita, porque me encontrei com pessoas que vieram do mundo inteiro. Era um mar de gente, era inacreditável o que se via. Todas as línguas, os costumes, as cores…
Famílias com crianças de colo estavam ali. Isso pra mim foi assim, uma coisa de Deus. Porque motivou tantas pessoas a irem para um lugar daquele jeito.
Então eu me senti até pequena, porque pensava assim, eu não sou a única que tive essa mesma vontade de ir e fazer alguma coisa.

A ajuda continua chegando no Haiti?
De todo o mundo chegaram marcas infinitas. Agora diminuiu muito, porque o Haiti já não está mais no status de calamidade pública. Então, muitas coisas estão sendo esquecidas e em muitos lugares já começam a sentir falta.
Acho que é um momento grave. Porque, de repente, chegaram muitas coisas, e agora, começam a retirar. Com essa retirada fica um vácuo, e, como que vai acontecer a vida nesse vácuo depois do terremoto.
No Haiti não existe fábrica, usinas, não existe trabalho como aqui no Brasil e em outros países. A população vive muito do comércio.

E os desabrigados?
Muitas pessoas ainda vivem em tendas. Alguns fazem resistência para sair debaixo das tendas, porque é mais fácil de receber ajuda das ONGs e de pessoas que passam.
Uma parte aceitou ir para casas que o governo construiu, num terreno mais alto, com maior segurança. Mas longe do centro da cidade [sem transporte, água e eletricidade].

A presença das igrejas
A Igreja Católica e as outras igrejas são um ponto de referência da esperança. Nós vimos todas as igrejas protestantes e católicas, lutando pelo mesmo bem que era melhorar a vida das pessoas.
O povo haitiano é um povo muito religioso, eles têm necessidade de rezar, de pedir a Deus. É um povo que viveu durante muito tempo a experiência de escravidão, mais de duzentos anos. Tudo isso ainda está muito vivo na pele haitiana, que sofreu muito com a escravidão.

O que aprendeu com o povo haitiano?
Uma paciência infinita. Eles têm a paciência de ver um dia a dignidade e a justiça ser instaurada. É a paciência histórica.

Fonte: A12